Inclusão na Ética da IA!
Por LDS Ativos Intelectuais – Reflexões sobre o humano no meio do algoritmo
Inclusão, na ética da IA, não é apenas uma palavra bonita em documento internacional; é a diferença entre participar do mundo ou ficar parado na esquina com um fusca 1977, motor ligado e sem lugar para estacionar. A Recomendação da UNESCO fala em “diversidade e inclusividade” como um dos quatro valores centrais da IA, lembrando que a tecnologia não pode ser desenhada apenas para quem tem o último smartphone, internet rápida e cartão cadastrado em dez aplicativos.
Seu Zé descobre isso numa tarde qualquer. Chega ao centro da cidade com o fusca azul-marinho, pintura cansada, rádio chiado tocando um samba antigo. Procura uma vaga, encontra, alivia o volante. Quando vai comprar o ticket, não há mais parquímetro, nem atendente, nem moedinha salvadora no bolso: só um aviso metálico mandando “baixe o app, cadastre o cartão, faça o login”. Ele puxa do bolso um celular antigo, a tela rachada refletindo o sol e a idade. Sem memória para novos aplicativos, sem conta digital, sem senha forte — o mundo inteiro parece ter deslizado um centímetro para fora do alcance dos seus dedos.
O constrangimento não é apenas logístico; é ontológico. A ética da IA fala em não discriminar grupos vulneráveis, em considerar as necessidades específicas de diferentes faixas etárias, culturas e contextos socioeconômicos. Mas ali, na calçada, o que se sente é outra coisa: a cidade como um sistema operacional que subiu de versão sem perguntar se o velho fusca podia acompanhar. Inclusão digital não é só ensinar o senhor a usar um aplicativo, é perguntar se é justo que o direito básico de ir e vir, de estacionar para ir ao médico ou ao banco, dependa de uma cadeia de tecnologia que o exclui por design.
A fenomenologia do momento é simples e brutal: motor ligado, vaga vazia, sistema cheio. Seu Zé hesita, olha em volta, teme a multa, decide ir embora. A loja onde ia pagar um boleto perde o cliente; a praça perde mais um corpo aposentado no banco de cimento; a cidade perde uma história que falava baixo, mas que fazia volume no coro social. Inclusão, na ética da IA, é o compromisso de que ninguém seja empurrado para fora da rua, do serviço público, da economia, apenas porque seu celular não cabe no século XXI. Enquanto isso não acontece, o fusca 77 continua rodando em círculos, como um pequeno manifesto azul dizendo: “não existe cidade inteligente se ela não sabe conversar com o mais antigo de seus habitantes”.
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