O Equívoco dos Números e a Estética do Desenvolvimento

Números, estética e desenvolvimento?

Há uma miopia crônica que costuma acometer os gabinetes reluzentes das capitais: o desajeitamento em diferenciar crescimento econômico de desenvolvimento econômico. Atente à diferença:

  • Crescimento Econômico: É uma entidade puramente matemática. É o PIB que sobe, a cifra que engorda, o caminhão de soja que cruza a rodovia esburacada. É, em suma, o enriquecimento de uma região que pode perfeitamente conviver com uma vala a céu aberto na rua de trás de um Fórum.

  • Desenvolvimento Econômico: Ah, esta entidade é uma obra de arte, uma entidarte! Trata-se da transformação macroestrutural da microtextura social. É quando o crescimento deixa de ser apenas um dado estatístico e passa a se traduzir em expectativa de vida, felicidade social/comunitária, escolas que permeiam a ponte ao futuro em integralidade cognitiva, saneamento básico da montante à jusante e diversificação econômico/produtiva pulverizada e respeitada a tradicionalidade antropológica territorial como fundamento.


O interior brasileiro — historicamente visto pelo litoralismo oficial como o "celeiro" ou o "vazio" — cresce a passos largos. Mas desenvolve-se? Nem sempre. Muitas de nossas cidades operam sob o milagre da monocultura ou da extração: geram fortunas que viajam de trem dos rincões interioranos aos navios de vastos oceanos, deixando para trás o barulho, o acidente, o pó, o subemprego e a dependência de repasses federais. Desenvolver o interior é envolver e fixar o talento na terra, criando polos tecnológicos, infraestrutura logística descentralizada e agroindústrias de alto valor agregado, dentre tantas outrosexemplos de possibilidades e potencialidades...

A Dança das Cadeiras e a Nobre Arte da Alternância

Diante disso, olhemos para as frentes parlamentares das Assembleias Legislativas que se desenharão no pleito de 2026. Os atuais ocupantes das cadeiras estofadas das nossas ALERJs, ALESPs, vinte e sete casas legislativas conforme a União Nacional dos Legisladores e Legislativos Estaduais, não são, de forma alguma, homens ou mulheres desprovidos de intenções. Eles são apenas... eles mesmos. Prisioneiros, quiçá, de uma lógica paroquial em que o desenvolvimento econômico é confundido com a conquista de uma emenda para calçar três ruas com paralelepípedos na véspera da eleição.

Não há crime nisso; há apenas limitação.

Se a atual safra de parlamentares demonstra uma tocante incapacidade de compreender as engrenagens bioenergéticas modernas da, e na, economia e do desenvolvimento sustentável, a solução não é a indignação inflamada, mas sim o pragmatismo democrático republicano. Que sejam trocados! Com a elegância de quem substitui uma peça de O Guarani de Carlos Gomes por Uirapuru de Villa-Lobos por necessidade de mais emoção contemporanizada.

O parlamento não é um casamento indissolúvel; é um contrato de temporada. A alternância de nomes e, fundamentalmente, de ideias não é um ato de rebeldia, mas o cumprimento estrito do desenho, da arquitetura engenhada e evolutiva constitucional. O objetivo final do Estado — o bem comum — exige mentes que saibam ler e interpretar o século XXI, e não apenas o mapa eleitoral do próprio reduto. 

O Ouro Invisível: O Mercado de Carbono e Suas Nuances

E que século XXI fascinante está sendo, vinte e cinco por cento já foi-se! Enquanto alguns deputados e deputadas estaduais ainda debatem a autoria da lombada eletrônica da rodovia vicinal, o mundo discute a precificação do ar. O Brasil possui um potencial pantagruélico no Mercado de Carbono, e as nuances desse setor deveriam ser o livro de cabeceira de qualquer legislador que se preze.

O interior do Brasil não é apenas o lugar onde se planta; é o lugar onde se sequestra carbono.


Potencial Brasileiro no Mercado de Carbono

  • Créditos de Carbono (Reflorestamento e Manejo Sustentável)
  • Serviços Ambientais (Preservação de Bacias Hidrográficas)
  • Agropecuária de Baixa Emissão (ILPF - Integração Lavoura-Pecuária-Floresta)


Obs.: imagem produzida em parceria com a Gemini, IAGen do Google. Vejo como uma distorção de sentidos, considerando ser uma ferramenta alimentada em inglês, logo o Brasil é com "z", peço compreensão, não farei outra hehe.


As Assembleias Legislativas possuem um papel crucial que raramente exercem com a devida sofisticação: a criação/melhoramento de marcos regulatórios dos fundos subnacionais soberanos, os regulamentos para incentivar o mercado regulado e voluntário de carbono, a desburocratização de fundos verdes, debêntures verdes e a concessão de incentivos fiscais para empresas que neutralizam suas emissões, além de trocentas outras dimensões deste mercado.

No entanto, há nuances que exigem temperança. O mercado de carbono não pode se tornar uma forma de colonialismo verde, ou neocolonialismo ecológico, onde grandes corporações compram o direito de poluir à custa do engessamento econômico das comunidades tradicionais e dos pequenos produtores do interior. É preciso legislar para garantir a rastreabilidade, a integridade dos créditos e, acima de tudo, que a riqueza gerada por esses ativos ambientais permaneça no município de origem, financiando — olhem só — o Desenvolvimento Econômico.

O Veredito das Urnas em 2026

Em suma, as eleições de 2026 não deveriam ser um concurso de popularidade ou uma distribuição de sorrisos em feiras agropecuárias. O interior do Brasil tem pressa de modernidade.

Se os representantes que hoje lá se encontram preferem o conforto do velho clientelismo e do novo emendismo secreto, à audácia e árduo trabalho de projetar e planejar o mercado de carbono e a industrialização tecnológica regional interiorana, que as urnas lhes concedam uma merecida e vitalícia aposentadoria política. Sem rancor, sem agressões. Apenas com o sutil e definitivo clique da urna eletrônica, lembrando-os de que o Estado é eterno, mas o mandato é um sopro. E o bem comum, afinal, não pode esperar.


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