CICATRIZES LUMINESCENTES

 CICATRIZES LUMINESCENTES (Conto)


A luz do celular era o único sol que conheciam. Um sol frio, de LED, que nascia e morria na palma de suas mãos. Ana, Marcos, Lucas e Julia não se lembravam mais do gosto da concentração, daquela linha de pensamento que se desenrolava lenta e profunda, como um rio. Seus cérebros eram agora um campo de batalha estéril, bombardeado por estímulos, onde a paz era um conceito esquecido em uma aba fechada há muito tempo.


Eles se encontravam na sala vazia da escola após o horário, mas não estavam presentes. Os corpos, abandonados em cadeiras, eram cascas pesadas. Os espíritos, dispersos, orbitavam em plataformas digitais diferentes. O silêncio entre eles não era cômodo, era a prova sonora do vazio. Era um silêncio carregado de notificações não ouvidas, de ansiedade por checar, de pavor de perder a trend que explodiria em segundos e se dissiparia em minutos.


Ana tentava ler um parágrafo de um livro para a aula. As letras dançavam, se recusavam a formar sentido. Ela lia e relia a mesma linha, enquanto uma coceira fantasma no dedo polegar puxava sua consciência de volta para a tela, para o vácuo brilhante que prometia alívio e entregava apenas mais fome. Havia um desespero mudo naquele ato simples. Ela queria entender o texto, mas algo dentro dela estava quebrado. O circuito da paciência estava rompido.


Marcos via os outros não como amigos, mas como conteúdo. Por um breve segundo, ao olhar para Julia cabisbaixa, pensou: “Essa expressão renderia um bom vídeo. #Depressão #Real.” Ele se horrorizou consigo mesmo imediatamente após, envergonhado pela necrose de sua empatia. Sua capacidade de sentir havia sido substituída por uma avaliação estética constante, uma vida vivida em terceira pessoa, através de um filtro. Ele era o diretor de um filme chato onde era também o personagem principal entediado.


Lucas, o mais quieto, travava a batalha mais visceral. Ele sentia a mente como uma gaveta entupida de memes, jingles e clipes desconexos. Quando tentava acessar uma memória de infância, de um passeio com o avô, em seu lugar só vinha o som distorcido de um áudio viral. O passado estava sendo sobrescrito. Ele estava perdendo a si mesmo, byte a byte, e a única sensação que restava era a de um pânico baixo e constante, como o zumbido de um aparelho ligado na tomada para sempre.


Julia, por sua vez, buscava refúgio no hiperestímulo. Quanto mais a realidade parecia opaca e sem graça, mais ela mergulhava em vídeos acelerados, em coreografias impossíveis, em gritarias digitais. Era uma fuga, uma tentativa de preencher com luzes e ruído o abismo que se abria dentro do seu peito. Ela se sentia como um rato apertando uma barra de dopamina, cada vez mais fraca, cada vez mais rápido, até a exaustão da alma.


O clímax não viria com um grito, mas com um esquecimento. 🚫


Ana tenta contar uma história pessoal, algo que aconteceu no verão passado. Ela abre a boca, e… nada. Um branco. Não um branco comum, mas um branco pixelado, estático. As palavras fugiam como areia entre os dedos. Ela olha para os amigos, e vê o mesmo terror refletido em seus olhos. Marcos não consegue sequer lembrar o nome do professor que saiu da sala cinco minutos antes. Lucas confunde dias, horas, sensações. Julia percebe que não consegue mais imaginar, criar uma cena original em sua mente. Só consegue recortar e colar referências de coisas que já viu.


Eles se entreolham, finalmente — uma conexão verdadeira, forjada no desespero. Não precisam falar. Enxergam, na pupila dilatada do outro, o mesmo reflexo azul-esbranquiçado. São sobreviventes de um naufrágio que aconteceu em seco, dentro de seus próprios crânios. As cicatrizes não sangram, mas piscam. São cicatrizes luminescentes.


Eles estavam ali, os quatro, em uma sala que era um mundo, segurando em suas mãos os fragmentos do próprio cérebro, espalhados em mil histórias, mil vídeos, mil curtidas. E o mais aterrorizante era que, mesmo sabendo, mesmo sentindo o vazio roer as bordas da consciência, o impulso era irresistível. As mãos, quase por vontade própria, se moviam. Os polegares deslizavam para cima, buscando o próximo refresh, a próxima dose do veneno que os mantinha vivos e mortos, todos ao mesmo tempo.


A tela acendia de novo. E o sol frio os iluminava, fantasmas, conectados a tudo e a nada, donos de um universo e órfãos de si mesmos.


Gratidão por chegar até aqui! 😍😉

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