A casa da Vó Elza cheirava a pão de ló e a um silêncio que tinha peso. Era um silêncio gordo, cheio de substância, diferente do vazio fino e ansioso que os acompanhava por entre as notificações. Lara, Bia, Pedro e Gael trocaram olhares de pânico discretos quando o sinal do Wi-Fi esmoreceu e morreu na porta da cozinha, como se uma barreira física os separasse do oxigênio digital.
Vó Elza, com suas mãos que contavam histórias em veias salientes, colocou sobre a toalha de crochê não um jogo comum. Era um tabuleiro de madeira clara, desgastado nos cantos, com casinhas pintadas de azul e vermelho. Os pinos de metal, pequenos soldados de chumbo, pareciam aguardá-los. "Isso se chama Ludo," disse ela, e o nome soou no ar como um feitiço antigo.
O tom alegre inicial da partida seria apresentado como uma fratura, uma máscara. A risada de Gael ao enviar o pinho de Pedro de volta ao início soou estridente, quase falsa, para seus próprios ouvidos. Era a risada de um vídeo de comédia, não a que nasce da surpresa genuína. Bia concentrava a testa franzida, mas sua mente vagava, buscando o feed perdido, o hábito neuronal clamando por sua dose. O dedo dela coçava no vazio, fazendo o gesto fantasma de deslizar a tela.
A verdadeira imersão começaria no espaço entre as jogadas.
Enquanto Lara esperava a vez, forçada a não olhar para um dispositivo, seu olhar vagueou pela sala. Reparou no relógio de parede de pêndulo, cujo tique-taque era um coração mecânico. Viu a fotografia do avô de Elza, um homem de bigode e olhar sereno, preso para sempre em um instante do século passado. O tempo aqui era diferente. Não era fracionado em stories de 15 segundos. Era contínuo, lento e respirava. Essa descoberta não foi pacífica; foi assustadora. Ela se sentiu nua, sem a muleta dos estímulos.
Pedro, ao segurar o dado de madeira maciça (não uma imagem tátil numa tela), sentiu seu peso. O barulho ao cair na madeira era orgânico, um toc definitivo. Ele percebeu, com um estranhamento profundo, que estava ali, inteiro. Seu corpo não era apenas um suporte para os olhos que liam telas. Estava sentado numa cadeira de madeira, sentia o pano do short nas pernas, o cheiro do pão no forno. Essa sensação de estar foi quase violenta, como acordar de um sonho muito longo.
O clímax não seria uma grande revelação, mas uma série de silêncios que passaram a falar.
Quando Vó Elza contou, entre uma jogada e outra, sobre como jogava isso com os irmãos durante as férias na roça, sem luz elétrica, à luz de lampiões, ela não estava apenas preenchendo o tempo. Ela estava tecendo uma memória ao vivo. Eles, acostumados a consumir narrativas prontas em séries de 50 minutos, tiveram que participar da construção daquela história. Tiveram que imaginar a escuridão, o chiar do lampião, a risada dos irmãos. Um músculo atrofiado em suas mentes – o da imaginação pura, não dirigida – deu um espasmo doloroso e prazeroso.
A vitória de Bia, ao final, não foi celebrada com gritos histéricos para as câmeras. Foi um sorriso lento, que nasceu de dentro para fora, um suspiro de realização que não precisava ser validado por likes. Era dela. Apenas dela.
O final seria redirecionado para uma abertura mais envolvente e inquietante:
Ao se despedirem, abraçando Vó Elza, o mundo lá fora pareceu voltar com um rugido. O celular de Gael vibrou, uma enxurrada de notificações inundou as telas. Mas algo havia mudado. O brilho parecia agora agressivo, barulhento demais.
No carro de volta, o silêncio entre eles não era mais o vazio ansioso do começo. Era um silêncio cheio, ruminante. Lara olhou pela janela e realmente viu as árvores, a forma dos galhos contra o céu cor-de-rosa, e não pensou em filtrar nem postar. Apenas viu.
Bia, já em casa. Ela segura o celular, mas seu olhar está perdido no teto. A partida de Ludo não era um “vício” a ser trocado. Era uma pergunta que ecoava na sua cabeça.
Ela sentia a coceira no polegar, o impulso automático de desbloquear, de mergulhar na correnteza. Mas agora, pela primeira vez, ela conseguia nomear o que era aquilo: uma fuga. E também conseguia saborear a memória de outra coisa: a presença.
O jogo não havia salvado ninguém. Não era uma cura mágica. Era um grito de alerta silencioso, que veio na forma de um dado de madeira e do riso suave de uma avó. Um grito que dizia: "Existe um sabor diferente. Existe um ritmo diferente. Você consegue ainda senti-lo?"
Bia desliza o dedo, a tela acende. O mundo infinito e raso está ali, a um toque. Ela suspira. O desafio, agora, não era mais jogar Ludo. Era decidir, a cada minuto, em qual mundo ela queria habitar.
O sabor do pão de ló é misturado com o gosto metálico da dúvida. E deixaria a pergunta pairando: Ao fechar esta história, para qual mundo você, leitor, irá voltar? A escolha, agora consciente, seria a verdadeira herança do jogo.


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